domingo, 30 de janeiro de 2011

Canção Póstuma



Fiz uma canção para dar-te;

porém tu já estavas morrendo.
A Morte é um poderoso vento,
E é um suspiro tão tímido, a Arte...



É um suspiro tímido e breve
como o da respiração diária.
Choro de pomba. E a Morte é uma águia
cujo grito ninguém descreve.



Vim cantar-te a canção do mundo,
mas estás de ouvidos fechados
para os meus lábios inexatos,
- atento a um canto mais profundo.



E estou como alguém que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a lágrima de sua face.



E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde, -
- E sofro sem saber de que Arte
se ocupam as pessoas mortas.



Por isso é tão desesperada
a pequena, humana cantiga,
Talvez dure mais do que a vida,
Mas à Morte não diz mais nada
______________________________________________

Cecília Meireles


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente